terça-feira, 18 de junho de 2019

Minha Primeira Namorada.

Na época em que eu estudava na Faculdade de Direito,eu era muito só. Solitário mesmo! Então para prencher o meu tempo,fora do que eu ocupava nas aulas e com os trabalhos da Faculdade,comecei a escrever contos e crônicas. Fiz até poesias.Mas eu os escrevia à mão e depois ia numa Escola de Datilografia e pedia para alguém datilografar tais textos para mim. E eu mandava estes escritos para um Jornal de circulação diária de Goiânia,GO,( Jornal "O Popular") no qual tinha um "Suplemento Cultural" aos domingos. Lá tinha umas colunas com o "Grupo de Escritores Novos" o GEN". O Editor do Jornal,invariavelmente,publicava o que eu enviava. 
-Acho que eu tinha algum talento.
E eu pensava em ser um Escritor de verdade.Sonhava !
Porém,eu também tinha de trabalhar,pois eu não tinha facilidades em minha vida. O meu pai faleceu no exato ano em que entrei na Faculdade e minha mãe ganhava a tal pensão de um salário mínimo do INSS. Tive de recorrer ao financiamento bancário. Na Época o "Crédito Educativo",que paguei depois de formado. Era a época da ditadura,ainda.
E mesmo com estas dificuldades todas eu era feliz e não sabia. Porém,me faltava uma "Musa inspiradora". 
Eu era mesmo muito solitário! Não tinha uma namorada-mulher. Tinha amigas,colegas do curso que iam nos lugares comigo,mas depois eu estáva sempre só. Já estava até me acostumando com isso. 
No começo do Curso de Direito eu não tinha nem mesmo uma máquina de escrever. Tive de arrumar uma,inclusive para poder fazer os trabalhos da Faculdade.
Mas,por necessidade da época,tive de me virar sozinho mesmo. Eu tinha amigos no trabalho,no futebol que eu praticava nos finais de semana e na Faculdade. Mas, nas noites frias e compridas eu estava sempre só mesmo. Mais sozinho do que uma chinela sem dono.
E num belo dia de fevereiro me apareceu a "Valentine".Foi como um milagre em minha vida.Ela era pequenina,vermelhinha e baixinha e tinha nascido no México. 
-Isso mesmo ela era Mexicana !
Daí então tudo foi ficando mais fácil.Comecei a escrever mais,fazer os trabalhos escolares com mais ânimo e também aumentei a produção dos contos e crônicas .Fiquei mais animado mesmo e, por assim dizer,"tirei de letra" o Curso de Direito.
Consegui me formar. E como diz a letra daquela música famosa do Martinho da Vila,a "Faculdade era particular...E foi um diretor careca que me entregou o meu papel...o meu canudo de papel" !
Depois disso, foi só trabalho,trabalho e  mais trabalho.
Contudo, eu não largava,de forma alguma, a minha "namorada mexicana". Usava ela direto. 
Minha primeira namorada: A "Valentine", a vermelhinha,baixinha e mexicana.Estava escrito nela "Hecho en México".
Ah! Antes que me esqueça, Valentine era a minha máquina de escrever. Era da marca Olivetti,(marca italiana)mas fabricada no México. Foi com a ajuda da minha irmã que a adquiri em 12 prestações mensais. Com ela cheguei a ganhar até dinheiro, escrevendo e fazendo trabalhos para outras pessoas. Era como um troféu para mim. E como eu gostava muito de escrever nela, datilografei todas as matérias do Curso de Direito,o que me ajudou a aprender mais e até servir para outros colegas alunos e alunas. Eu doava cópias das matérias para os colegas. Eles pagavam apenas "a xerox" (Cópias).
Depois de muitos anos comprei mais outras. Uma Facit e uma Remington. Porém,mesmo antes de virem os computadores abandonei estas. Uma eu vendi para um colega da Faculdade,que se tornou Delegado de Policia. E a outra doei. Nem me lembro agora para quem... 
Mas, a Valentine eu guardei e a tenho até hoje,passados mais de 30 anos. Ela está guardada,meio esquecida, num canto da sala. E não a vendo,nem troco e nem dou para ninguém.Ela é a lembrança de uma época feliz que eu vivi.
E com todas as dificuldades,me formei ,mesmo sendo pobre e cercado de alunos ricos e de classe média.
E assim, pude seguir adiante na minha profissão da área do Direito até hoje. Entretanto,muito antes dessa aposentadoria da Valentine, eu já me dedicava a escrever livros,com rascunhos dos textos guardados para depois. E com o tempo veio as facilidadades da tecnologia. E já publiquei doze livros. Agora, com a ajuda dos Computadores. Tenho um muito bom em casa.
Hoje em dia,ao ver a Valentine já meio enferrujada,num cantinho da sala,me lembro daquela época com alegria,quando tudo que eu tinha era ela e umas folhas de papel em branco,para eu preencher com letras. 
Olhando para ela,me lembro de todas as pessoas que passaram pela minha vida,inclusive amigas,amigos,namoradas e colegas do Curso de Direito e do local em que eu trabalhava. 
Ao vê-la, me lembro das muitas madrugadas solitárias,só eu, ela e os grilos cantando na noite...e eu catilografando,catando as letras. Graças a Deus por isso. 
E assim,mesmo, sozinho na noite fria, só eu e a Valentine,eu era feliz !
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A.L.G.  18/06/2019.


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