terça-feira, 24 de dezembro de 2019

O "PAPAI NOEL" LADRÃO !


​Era 23 de dezembro de 2014, noite fria e chuvosa nos arredores de Goiânia, GO, e o Sr. José, o catador de papéis, empurrava tristemente seu carrinho pelas ruas, já cansado e desanimado, pois naquele dia não conseguira juntar muitas caixas e papelões como de costume. Além disso, estava chovendo há algum tempo e os papéis e caixas que os comerciantes haviam jogado fora estavam se estragando, ou estavam sendo carregados pela correnteza das águas da chuva.
Normalmente ele pegava muitas destas caixas e papelões de embalagens, e era com a venda deles no quilo, que comprava os mantimentos para sua casa. Em outras palavras, a venda destes papeis velhos em um determinado comprador, era o seu ganha-pão. Era esse o seu trabalho e com ele sustentava a mulher Maria e os três filhos menores. 
E naquela noitinha, antevéspera do Natal,em que ele já estava voltando para casa todo molhado, resolveu entrar num boteco para tomar umas "pingas”, pois ninguém é de ferro! Tomou uns dois goles de cachaça e voltou ao seu carrinho com papéis velhos, retomando o caminho de sua casa. E apesar da chuva fina intermitente, o "clima" era de Natal, com luzes coloridas pelas casas, nos postes, nos prédios.
De repente, ele parou em frente a um Supermercado, destes maiores que, praticamente, são detentores do comércio dos bairros onde se situam. Ele parou, e ficou vendo toda aquela fartura, com tantas coisas gostosa à venda. Pessoas entrando e saindo com seus carrinhos de compras cheios, colocando nos porta-malas dos carros. Crianças contentes com vários brinquedos na mão.
Vê tudo isso só lhe fazia sofrer ainda mais, tal a sua pobreza e a sua condição humana diante de tudo.
E naquele dia específico ele só tinha no bolso alguns trocados, que lhe permitiria comprar o café e o leite que sua cara-metade havia lhe pedido para comprar assim que saíra de casa. Mas, gastara o dinheiro com as cachaças que tomou. 
E assim, meio "grogue" pelas pingas que tomara, sentou-se na calçada deste supermercado, e diante de uma TV grande que estava na porta, começou a prestar atenção nos noticiários das 19:30 horas. Eram só notícias sobre corrupção, falcatruas de políticos, de empresários, crimes e outras coisas que viraram rotinas em nosso Pais.A roubalheira é antiga por aqui. Porém, o José, o catador de papéis, nada podia fazer. Afinal de contas ele era apenas um homem pobre, quase um pedinte.
Ele agora estava a imaginar como iria conseguir comprar os persentes que seus três filhos lhe pediram. 
-Como iria fazer? 
E ficou por um tempo, vendo a TV e pensando na vida. Mas, levantou-se e voltou ao seu caminho para casa. Estava pensando na bronca que iria levar da Maria, por não ter trazido o leite e o café. Chegou em casa e caiu em cima do colchão velho que estava à sua espera. Nem deu ouvidos às reclamações da “patroa”. Se entregou ao sono, apagou!
E ele dormiu até ás 10:00 hora da manhã seguinte, que era 24 de dezembro, véspera de Natal. Acordou e se deparou com a realidade nua e crua de sua vida, sem dinheiro para comida e para comprar os presentes da patroa e dos "meninos". A Maria queria, pelo menos, comer um frango assado; o filho Thiago queria uma bola e uma chuteira; o João Paulo, uma bicicleta, e a menina chamada Betânia queria roupas novas, pois, com 12 anos ela já tinha "enjoado" de bonecas. 
-E agora José?
Ele ficou todo aquele dia a pensar e "matutar" sobre sua vida, sua condição social. Depois de comer arroz com ovo no almoço sentou numa cadeira velha na porta do barraco e ficou ouvindo um rádio de pilha velho. Notícias de esporte, de roubos, de crimes, estas coisas. E os meninos brincando no terreiro e sempre lhe perguntando sobre os presentes, se o "Papai Noel" iria lhe dar estas coisas. Papai Noel aqui significaria presentes. E esse pobre José, que deveria ser o “Papai Noel” deles, não tinha condição de comprá-los neste dia.
Árvore de Natal, frango para a ceia até aquela hora nada. E veio a noite, com o José ainda calado, pensativo. A Maria tinha ido na casa de alguma conhecida vê se ganhava alguma coisa.
De repente, lá pelas 8:00 da noite, teve uma ideia. Iria sair dali e iria conseguir umas coisas de comer e uns brinquedos para seus filhos. Iria pedir, claro. E pensava:
-Quem iria lhe negar, já que a solidariedade das pessoas é maior nesta época do ano?
E saiu pela noite, com um saco de algodão cru vazio em uma das mãos.
Na primeira casa que pensou em pedir, tocou a campainha e nada. Era uma destas casas de muros altos, cerca elétrica e alarme. Ninguém atendeu. Andou mais, bateu palmas no portão e nada.
E assim andou por muito tempo pelas ruas daquele bairro chique até se deparar com uma casa onde o portão da garagem estava aberto e essa garagem dava para a sala da casa. Chamou, bateu palmas, mas ninguém atendeu. Havia um barulho vindo de festa, música e conversa vindo no fundo da grande casa, cujo terreno era maior ainda. E ele entrou na sala daquela casa onde encontrou vinho, bolas, bonecas e até uma bicicleta. 
-Seria o Milagre de Natal que tantos falam? 
Tinha até uma roupa vermelha de Papai Noel. Só que todas aquelas coisas eram de outras pessoas. E na hora ele não pensou isto. Pegou tudo pôs no saco que tinha levado de casa e saiu sorrateiramente. Antes, porém, vestiu a roupa de Papai Noel e começou a pensar que ele tinha conseguido seu objetivo, presentear os filhos, pelo menos...
Porém, alguém viu ele saindo dali e chamou a Polícia. Deu zebra, como dizem! José foi preso em flagrante com aqueles pertences. Foi parar no Distrito Policial. 
E assim, em pouco tempo, o José, de um simples catador de papel pobre que nem Jó, estava agora sendo “gozado” no Distrito, pelos Policiais, sendo chamado de “Papai Noel Ladrão”. E o pior de tudo é que, como foi preso em flagrante, só seria liberado se pagasse uma fiança de, pelo menos, um salário mínimo.
E ele dormiu na cadeia naquela noite de Natal. 
E só no dia seguinte um agente foi até o seu barraco avisar à Maria, sua cara metade. Esta, foi se socorrer com uma senhora bondosa para qual ela arrumava a casa e passava umas roupas em dias alternados da semana. Esta senhora, D. Adelaide, foi o “anjo da guarda” da família. Pagou a fiança do José, levou todos para a casa dela para passarem o Natal e ainda deu roupas para todos e brinquedos para as crianças do catador de papel. 
E mais, passado o Natal e Ano Novo, conseguiu vagas numa Escola Municipal para os filhos do José, e um emprego na chácara de seu filho, para que o José fosse morar e tomar conta da mesma. 
-Ou seja, depois da tempestade, veio a bonança (*).
E de uma forma bem indireta e impensável,esse foi o "Milagre do Natal" para ele e sua família!

A.L.G -Reedição: 18/12/2019
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(*) Conto original de Antônio Luiz Gomes. Parte integrante de meu livro “As Vítimas da Sociedade”, publicado em 2ª Edição pela Amazon.com em janeiro de 2019

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