quinta-feira, 24 de outubro de 2019

GOIÂNIA - A bela capital de Goiás, faz 86 anos.



Como conheci o Fundador da Cidade de Goiânia,Capital de Goiás.

Hoje é 24 de outubro, dia do Aniversário da Cidade de Goiânia,Capital do Estado de Goiás. Essa informação pode ser encontrada em vários locais,mesmo aqui da Internet. O que não é fácil de encontrar, é a minha relação de convivência com essa cidade,na qual resido há muitos anos.
Por interesse e conveniência de meu pai,pernambucano como eu, e que era comerciante, viemos para Goiânia depois da Fundação de Brasília,a Capital do Brasil. Havia o boato de que aqui era a capital do futuro e meu pai,junto com meu tio,sócio dele num comércio (Loja "A Lusitânia") em Vitória da Conquista,na Bahia,resolveram se mudar para cá. E assim  foi que nós, todos da Familia Gomes passamos a ter uma nova vida aqui. Meu tio Cícero Herculano, irmão de minha mãe, também veio. Ele vivia só no início, depois arrumou uma companheira baiana,que veio morar com ele.
Inicialmente fomos morar no bairro de Campinas, na chamada "Campininha das Flores",que era uma região muito mais antiga do que a própria Capital,que só foi fundada em 1933.
E foi nesse bairro de Campinas que dei meus primeiros passos na Escola Municipal,na Igreja da Matriz e nas primeiras amizades,no antigo Colégio Pedro Gomes. Depois foi a vez de começar a trabalhar à noite ,com 15 para 16 anos de idade.
Depois veio a hora de "servir o Exército",terminar o 2º grau e entrar na Faculdade. Para isso,logo após sair do Exército eu precisava trabalhar. E foi assim que fui  parar no bar de um Posto de gasolina,da "bandeira" Shell,situado exatamente na Praça Cívica, a primera praça de Goiânia.Go.
Foi nesse lugar,trabalhando incessantemente das 7:00 da manhã até 11:00 horas da noite, saindo apenas para ir para o Colégio noturno,que conheci o Fundador da Cidade de Goiânia, o Dr. Pedro Ludovico Teixeira. Isso mesmo,ele era Dr. mesmo pois era médico. Ele morava a apenas uma quadra do Posto Scarabocchio,onde eu trabalhava. Esse posto,feito num modelo inédito na cidade,em forma de pitt-stop (a Shell patrocinabva corredores de Fórmula 1),ficava exatamente na esquina da Praça Cívica com a Rua 26,no centro de Goiânia. E a casa do Dr. Pedro era na esquina da Rua 26 com a Rua 25. Hoje lá é o Museu Pedro Ludovico. 
Em, alguns anos,na época, e mesmo depois que eu saí,o Posto Shell exibia um modelo do carro de corrida de Fórmula 1,que ficava estacionado no pátio do posto. Eu continuei a passar por ali por muitos anos,quando eu ira para o fórum. E encontrei ,por mais de uma vez o Sr. Manoel Vieira, o gerente do posto.
Foi trabalhando ali que conheci pessoalmente o Dr. Pedro.Ele,já aposentado e já deveria tem mais de 80 anos de idade. Ele tinha uma camionete marrom,da marca GMC, e sempre passava no posto com seu motorista para abastecer o veículo. E em várias destas ocasiões ele descia,esticava as pernas e ia até o bar do posto tomar um café. Eu lhe servi café várias vezes. 
Numa destas vezes,enquanto terminava o café no balcão do bar e o Dr.Pedro já se dirigia à camionete, o seu motorista me disse:
 -"Você sabe quem é este senhor ?"  E continuou: " Ele é muito importante para a História de Goiás".
 O próprio Dr. Pedro não conversava muito.Ele nunca me disse quem era até então. Era bem humilde,apesar de ser quem era. Ele foi interventor em Goiás quando fundou Goiânia, na época do Governo do  Presidente Getúlio Dorneles Vargas, no primeiro Governo deste, a partir de 1930.
Eu não o conhecia,mas tinha a impressão de já ter visto fotos dele em jornais. E disse que não sabia. Nesta época eu estava cursando o 2º grau, prestes a fazer vestibular. Então eu disse ao motorista  que lia muitos jornais e revistas e poderia até já ter visto fotos dele. 
Então o motorista me disse:
-"Ele é o Dr. Pedro Ludovico Teixeira,o Fundador de Goiânia, e mora bem ali,na Rua 26 com a Rua 25". 
Eu fiquei contente de conhecê-lo.
E certa vez ele me deu a mão para me cumprimentar. Ele me dizia sempre, quando ia até o bar do posto: 
-"Menino,me dê um cafezinho desse bem gostoso que você faz aí".
Nesse tempo ,que descrevo aqui, eu tinha pouco mais de 20 anos de idade e havia poucos meses apenas que eu havia saído do Exército. Foi o Jacinto,um antigo amigo, pernambucano como eu, que me arranjou este emprego.Ele "arrendou" o bar do posto e eu o ajudava no Bar. 
Eu ganhava pouco mais do que um salário mínimo e o horário era bem "puxado". Eu saía um pouco à tarde,ia almoçar em casa ou fazia lanches lá mesmo. Às vezes ia ver um filme à tarde,no Cine Capri ou no Cine Ouro. E tinha o horário sagrado de eu ir estudar : das 7:00 às 10:30 da noite. Desse horário eu não abria mão. Aceitei trabalhar lá, mas informei ao Jacinto que eu tinha de continuar estudando.
Lá, nesse posto,nós servíamos café para todos que decessem do carro e fossem até o bar. O café era feito numa máquina moderna e eu o "fazia" com um pouco de chocolate. O café ficava gostoso e cremoso. Muitos ficavam curioso com minha "receita". Não era exatamente um "capuchino",mas era quase igual E era de graça para os melhores fregueses. 
E o Dr. Pedro,que não gostava de ficar em casa "cochilando",ia muitas vezes,com seu motorista,ver um filme na sessão da tarde num cinema perto,também no Centro da Cidade. E era nestas idas que,de vez em quando,ele parava no posto para abastecer e tomar o "meu café". Nesse tempo não tinha as "mordomias" de hoje,com TVs grandes e filmes à tarde e à noite para se ver. Era no cinema que que tinha a "tela grande" e passavam os filmes bons.Cinema de rua. Os Shoppings ainda não tinha chegado por aqui.
Foi um tempo bom esse em que eu,mesmo sendo simples morador da periferia,pude trabalhar bem no centro da cidade e conhecer gente importante como o Dr. Pedro. No bar do posto tinha umas mesas brancas com umas sombrinhas(Guarda-Chuvas ou Guarda-Sol) coloridas,tipo praia,bem próximo das bombas de gasolina, e nessas, as pessoas se reuniam à tardinha para beber, conversar e comer um tira-gosto que eu e o Jacinto lhes servia. 
Tinha cervejas,wiskyes ,licores e até cachaça. E os tira-gostos eram peixes fritos ,amendoim torrado na manteiga e queijo parmezão de Minas,cortadinho com azeite português. Todos gostavam .
De vez em quando fazíamos bolinhos de bacalhau. O Jacinto tinha trabalhado num hotel e sabia dessas "coisas" da culinária . E ele me ensinou a fazer. Isso era pago,não era cortesia do posto. O bar  era eu e o Jacinto que administrava. O posto era administrado pelo Sr. Manoel Vieira,um senhor bem legal,de Jaraguá,GO. O posto era dos irmãos de criação dele. Um deles era um engenheiro que trablhava em São Paulo e que deu o nome ao posto.O outro era o |Dr. Gilson,arquiteto que trabalhava na Seplan. Ele era de pouca conversa,mas me tratava bem.
E eu fazia esse trabalho de servir os clientes do posto e ainda ia para o Colégio à noite Nunca me esqueci disso.Nossos fregueses eram pessoas boas do Tribunal de Justiça,da Secretaria da Fazenda e da Seplan(Secretaria de Planejamento de Goiás) e da Prefeitura, que nesta época  funcionavam todos na Praça Cívica. Muitos eram Engenheiros, Contadores, Fiscais, Juízes, Delegados e Promotores. Na sua maioria homens.Rramente iam mulheres lá. A não ser acompanhadas dos maridos e namorados. Não era época de mulheres sentarem num bar de posto sozinhas. Os costumes eram outros...
E foi aí,conhecendo essas pessoas,que eu também decidi que faria o Curso de Direito. E só depois de começar a frequentar o Fórum e já ter deixado aquele emprego no posto, pude saber quem eram os senhores doutores que eu servia no bar . 
Alguns deles até me reconheceram no Fórum,quando eu já era advogado,em meados dos anos 80 em diante.. 
Mas esta é uma outra História.
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P.S O Dr. Pedor Ludovico Teixeira,o Fundador de Goiânia,Go faleceu em 16 de agosto de 1979

Original de : AL.G. 24/10/2019.