sábado, 16 de novembro de 2019

Crítica e profecia - A filosofia da religião em Dostoiévski -(de Luis Felipe Pondé) Comentários à obra. Narrado .



DOSTOIÉVSKY NÃO MORA MAIS AQUI .

     
             Há alguns anos, quando a Ana Luiza, minha 1ª filha, estava começando o 2º grau, e nós não tínhamos internet em casa, e num período em que nem tínhamos telefone fixo, nem celular, ela se comunicava com um colega de escola, de nome Gustavo, através de cartas. Isto mesmo, embora morando na mesma cidade, ela se comunicava com o colega do colégio através de cartas sociais, que são mais baratas e ali ela podia expressar todas as suas ideias, conversas de jovens etc. Eram cartas longas, de mais de três folhas...
             Não sei se ela tinha intenção de namoro com o citado rapaz, mas o certo é que ele também escrevia cartas para ela. Ele é muito estudioso e acabou se formando em História.
            E isto fiquei sabendo por que aqui em casa não existem segredos quando se trata de envolvimentos com pessoas de fora. Nossa família "joga aberto". Conversamos e queremos, ainda, saber da vida um do outro.  Há lógico, a privacidade normal, nestes casos de namoro e amizade. Mas, sendo ela menor de idade naquela ocasião, vigiávamos, e queríamos saber com quem conversava, saía etc.
            Nunca ninguém leu as cartas que ela recebia, a não ser ela mesma. Mas sabíamos da existência destas cartas.
                  O curioso nessas correspondências é que ela usava um pseudônimo diferente para "assinar" as Cartas. Em muitas destas ela usava o pseudônimo de "Anna Karenina", que para quem não sabe é o nome da personagem e do romance escrito pelo Russo León Tolstoi. 
                  E o Gustavo, por sua vez, respondendo as cartas, usava o pseudônimo de Dostoievski. Ou melhor assinava as cartas que mandava para a Ana, minha filha, com o nome todo do outro Escritor Russo famoso, "Fiodor Dostoiévski"!
                  E tal comunicação entre eles era do nosso conhecimento, embora nós nem ficássemos preocupados com isso. Afinal eram jovens, amigos e colegas de escola e ele, invariavelmente, vinha em nossa casa.
                  Uma vez a minha filha Ana Luiza (a Anna Karenina, nas cartas) pediu para eu colocar uma dessas cartas no correio. Para ser mais barato usava o sistema de Carta Social, que pagava uns R$ 0,50 (cinquenta centavos) acho.
                  E levei a carta para pôr no correio, a pedido dela. O destinatário, mais uma vez, era o Fiodor Dostoiévski, (Gustavo, na verdade) cujo endereço na carta era de um outro bairro de Goiânia, GO.
                Até aí tudo bem, pois não era segredo para nós essa "comunicação" entre eles. E a utilização destes pseudônimos.
                Na agência terceirizada do correio, onde eu sempre ia e conhecia mais ou menos a moça que lá me atendia, tive o seguinte diálogo com ela:
               -Quero mandar esta carta pelo "sistema" de Carta Social! Ao que ela riu, pois, o termo não era bem esse (sistema?).
                Mas, atendeu-me bem e olhou bem a carta dos dois lados, o do remetente e do destinatário e viu que não tinha o CEP- Código de Endereçamento Postal. E enquanto ela foi verificar o código, numa lista no balcão, leu com atenção o nome da remetente: Ana Karenina e me perguntou:
               -"Esta Anna Karenina é sua parente?"
                -Sim! Respondi, meio sorridente!  E ela virou a carta e leu atentamente o nome do destinatário: Fiodor Dostoiévski. E olhando de novo para mim, disse:
            - "Acho que já ouvi falar desta pessoa!"
               E me perguntou:
            -" Ele mora aqui em Goiânia?"
              -Não! Eu lhe disse!
              E lhe respondi mais:
              -Dostoievski não mora mais aqui! 
                E, continuei:
           - Mas, a carta vai para este endereço aí mesmo que você está vendo, alguém vai receber e entregar a ele. Eu lhe disse.
             Claro que o Dostoiévski nunca morou aqui. Na resposta eu ligava a palavra "aqui" a esse nosso mundo, nosso universo da cidade de Goiânia, GO! Então dei a resposta com o que eu pensava na hora, de repente.
            Com o movimento todo no correio não dava para eu ficar conversando e contando a estória toda para ela... (Afinal, Dostoievsky já morreu há muito tempo) 
            Ela riu, selou a carta eu paguei os centavos da postagem e ela foi conversar baixinho com uma colega.... Enquanto eu ia saindo da Agência do Correio...
            Eu saí indignado dali. 
           -Será que ela já havia lido algum romance do Dostoiévski? 
           -Por quê lembraria do nome?
              -E do León Tolstoi? Será que ela já ouvira falar em seu romance "Anna Karenina”? (O nome certo seria Anna Kariênina)
               O tempo passou e a Ana aqui de casa já é maior de idade, continua amiga do Gustavo (o Dostoiévski dessa estória verdadeira) e agora já está formada em Direito, com carteira da OAB e trabalhando numa Empresa Pública, o que é um orgulho para mim, que também me formei em Direito há mais de 30 anos. Ela está para se casar com seu noivo, um outro rapaz de outra cidade, que não conhece o Gustavo. E nem quer conhecer, por certo!
               E o Gustavo, que ficou sendo amigo de nossa família, se formou em História e mora aqui em Goiânia mesmo. Não sei se ele se casou, mas recentemente ele postou foto de um filho que teve com uma namorada. Ele assumiu este filho!
               Lembrei-me dessa estória de novo, pois vi e ouvi um vídeo com imagens do filme, que conta esta história da Ana Karenina, tirado da obra do mesmo nome de autoria do Leon Tolstoi, (nascido em 09 de setembro de 1828), e também porque havia no texto que li informações de que já há uma outra versão da história de "Anna Karenina”, (filme lançado em 2012) do famoso romance épico que se passou na Rússia... 
                  Saliente-se que as obras de Dostoiévski também se transformaram em filmes famosos. Já o outro Escritor Leon Tolstoi, é conhecido também por Leo Tolstoi e pelo nome original em russo Liev Tolstoi.
                   Quanto ao Escritor Fiodor Dostoiévski verdadeiro, ele nasceu em 30 de outubro de 1821, em Moscou- Rússia teve uma vida bem difícil e morreu em 28 de janeiro de 1881, com 60 anos de idade…
                  A própria história de sua vida é muito forte, triste e sofrida. É de sua Autoria, outras obras-primas, tais como: "Crime e Castigo", "O Idiota", "Os Demônios", e os "Irmãos Karamazov". Suas obras sempre trazem personagens de almas atormentadas, sofridas. Perseguidas no íntimo delas mesmas. 
                  Agora, quem quiser, pode ver o filme "Ana Karenina" com a atriz francesa Sofie Marceau e o ator Alfredo Molina fazendo o papel do próprio Tolstoi. (Filme de 1997), pois no YouTube mesmo tem este filme.
                  É muito bom o filme e baseado na vida do próprio escritor e de pessoas que conviveram com ele na fria Rússia do século XIX.
               Ou pode ver a mesma história em outro filme mais recente com atores como Keyra Knightley e Jude Law, que estreou no Brasil em fevereiro de 2013. São bons filmes românticos e históricos ao mesmo tempo...
               Não digo aqui nem mesmo um resumo do filme, que é muito bom de se ver, e recomendo a todos, mas garanto aos amigos e amigas leitores: não esperem um final muito feliz!
               E serve esta história real para provar, mais uma vez, que nem sempre os interesses amorosos ou os romances dão certo. Eu fui testemunha de que aquele rapazinho chamado Gustavo era interessado na minha filha Ana Luiza. Ele andava quilômetros para ir lá em casa. Ia a pé mesmo! E a Ana foi com ele em alguns locais, fazer pesquisa escolares na época de estudante.
                Mas, não vingou o “romance literário” entre eles. Talvez o Destino não ajudou muito.  E, por amizade, o Gustavo foi na formatura do Curso de Direito de minha filha, em 2011.E foi também no casamento dela, em 18 de junho de 2016. Esta foi a última vez que falei com ele pessoalmente. Mas vejo-o sempre pelo Facebook.    Não terminou bem este idílio entre eles, começado com as tais cartas. Mas pelos menos estão vivos e levando suas vidas adiante.
                A minha “Ana Karenina”, a das cartas para o Gustavo, ou seja, a Ana Luiza (minha filha) está bonita, casada, viva e feliz. Ao contrário da Personagem do Leon Tolstoi, que não teve um final tão feliz. Quem viu o filme ou o livro sabe. Quem não viu o filme nem leu o livro, que o faça. Vale a pena!   E sempre fica uma lição disso tudo: Em termos de romance, nem sempre conseguimos a pessoa que queríamos E, às vezes quando não mais queremos, aquela pessoa nos aparece com interesse em nós. Ou vice-versa. Isto me faz lembrar de um verso que li num livro antigo de Português e Literatura, que utilizei no 1º Grau:
             “É nossa alma uma criança,
               Que nunca sabe o que faz.
               Quer tudo que não alcança...
              Quando alcança, não quer mais!” (*)
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Autor : A.L.G.   (*) Texto integrante de meu Livro "AS MULHERES -As muitas faces do Amor" . Publicado em 2ª edição pela Amazom.com em janeiro de 2019.