domingo, 12 de janeiro de 2020

"LUPITA" & CIA (Conto )

  Esta história inusitada aconteceu no interior do Estado da Bahia, Brasil. O nome da Cidade? Pindobaçu, a quase 400 quilômetros de Salvador. 
  O fato se deu em 24 de junho de 2011 e ficou conhecido em todo o Brasil mesmo depois disso, por causa das peculiaridades do "crime". Saiu em sites da internet e em Jornais de todo o Brasil e até de fora de nosso País. 
   Aqui os personagens principais são: 
   O Carlos Roberto (um ex-presidiário). 
   A Lupita (cujo nome verdadeiro é Erenildes).  
   E ainda a Maria Nilza.  
 Além do "Dom Juan" baiano de nome Edson. Que não apareceu muito na história. Ficou quieto, como se fosse um "mineirinho come quieto," embora também fosse baiano...  
  Este Edson, claro, era disputado pela Maria Nilza, mas morava ou namorava com a Lupita. Hoje se confunde muito a figura do amante com a de namorado!  Ou com outras uniões estáveis e não-estáveis, fora do casamento! 
 E, obviamente, este triangulo amoroso interiorano, agora já com quatro pessoas, estava fadado a não dar certo. Seria um Quadrângulo amoroso? 
 No nosso caso, a primeira personagem era a Maria Nilza. Esta tinha um caso com um trabalhador rural esperto, o Edson, bem mais jovem do que ela. Este, por sua   
vez, ao mesmo tempo namorava ou morava com uma outra mulher, de nome Erenildes, que tinha o apelido de Lupita. E não me perguntem por que ela tinha esse nome. 
 Então, se sentindo traída, a Maria Nilza contrata o ex-presidiário, de nome Carlos Roberto, (e que estava há poucos dias na cidade), para dar fim à "Lupita".  
  Ou seja, em palavras mais simples e compreensivas: matar a sua concorrente no amor. 
   Pois, assim, ela teria o Edson só para ela. 
 E para isso, marcou um encontro com o Carlos Roberto ("matador") perto do banco onde ela retirou de sua conta, R$1.000,00 (Mil Reais) para que ele fizesse o "serviço". Em outras palavras :contratou o Carlos Roberto por R$ 1.000,00 para que esse matasse a Lupita.  
  E ele se vangloriou: 
  -"Pode deixar D. Maria. Matar é comigo mesmo”!   
   Acho que ele já tinha feito isso antes, com outras pessoas, claro. 
 E assim a Maria Nilza foi até perto da casa da Lupita e a mostrou para o "matador”, para que ele soubesse quem era a pessoa que ele deveria matar. E foi para casa, para ficar à espera do acontecimento. 
  Só que teve um problema:  
  Assim que se aproximou da Lupita, o "matador" a reconheceu. Ele iria matá-la com uma faca, pois, recémsaído do presídio da Capital, não tinha nem uma arma de 
fogo com ele. Aliás, não tinha dinheiro para comprar um revólver. Acho que um revólver por ali era mais caro do que iria receber da “Contratante” Maria Nilza. Além disso ele não iria receber os R$ 1.000,00 todo de uma vez. 
 Mas, perto da “vítima”, ao reconhecer Lupita, ele certificou-se que eles eram amigos desde infância, pois ele era oriundo dessa região. E assim que conversou melhor com essa mulher, que era mais nova do que a Maria Nilza, começou a "se interessar" por ela e contou-lhe que iria receber R$ 1000,00 para matá-la. E que eles iriam forjar o crime e ele daria a metade do valor a receber (ou seja, R$ 500,00) para ela, com o que ela concordou. 
 Ele só não contou para a Lupita que já tinha recebido este valor. Esta, que não era mulher de um só homem, contou o fato para o Edson, que era o gostosão rural, que namorava, ou morava com ela, (Lupita). E o Edson, nas horas vagas, namorava com a Maria Nilza, também. Entenderam? E assim, Carlos Roberto, a Lupita e o Edson, pensaram em enganar a Maria Nilza. 
 Planejaram um crime forjado. Foram para um determinado lugar no quintal da casa da própria Lupita, que convidara o amante Edson para participar do engodo. E este levou uma máquina fotográfica para registrar a morte da amante Lupita. Essa, por sua vez, teve o cuidado de comprar um recipiente com catchup (molho de tomate) para poder dar mais realismo ao fato.  E assim, forjaram a cena do "crime": Ela deitada no chão, suja de catchup e com a faca enfiada perto do coração (na verdade entre o peito e o braço esquerdo dela). E o Edson tirou as fotos de um ângulo tal, para que o "matador" Carlos Roberto pudesse 
demonstrar para a Maria Nilza "que realmente tinha feito o serviço". Essa, vendo as fotos da Lupita “catchup” ensanguentada, com uma faca no peito, ficou contente. E agora esperava que o Edson, o seu “gostosão” trabalhador rural, voltasse e ficasse só com ela. Embora ele soubesse do plano macabro e tivesse participado do mesmo.  O que ela não sabia. E ele, ficou quieto, calado e não a procurou mais. Maria Nilza, a traída apaixonada, passou a procurá-lo insistentemente pela cidade.  
                    E, passados mais uns dias, a Maria Nilza ficou desesperada, pois o seu Edson não voltava para ela. E ela então foi às festas nas redondezas procurá-lo. Não achou. Foi então na feira da cidade, onde sempre ia. E lá estando, a Maria Nilza encontrou foi o Carlos Roberto (o "matador") nos braços da Lupita, todo animado, agarrado e aos beijos com ela que, para a Maria Nilza, deveria estar morta.  Assim ela descobriu a farsa.   E este "provável" ou hipotético crime, que não aconteceu, virou caso de polícia. Não porque a Lupita tivesse morrido, mas por falsa comunicação de crime, pois a Maria Nilza havia ido até a delegacia denunciar o Carlos Roberto por roubo, já que ele tinha pegado dinheiro com ela, porém, não tinha feito o “serviço” combinado. Mas isso é roubo? Nesse caso, o Delegado entendeu como Extorsão. E ela denunciou o "matador" Carlos Roberto, querendo os R$ 1,000,00 de volta, sem, contudo, dizer que tinha sido ela que contratara ele para matar alguém. No caso, matar a Lupita que agora era “cúmplice” do matador. 
 E o matador, por seu lado, que não tinha matado ninguém, enganou também a Lupita, pois ao invés de lhe dar os R$ 500,00 prometidos, mentiu para ela e disse que só tinha recebido a metade dos R$ 1000,00. E só ia lhe dar 240,00, (menos da metade da metade prometida) E ela aceitou.  
 No final das contas, esse seu amigo bandido, além de não a ter matado, ainda namorou com ela e lhe deu apenas menos da metade da metade do dinheiro recebido da Maria Nilza.  E após tudo isso, a Lupita ainda pôde continuar namorando também o Edson, que não mais quis saber da Maria Nilza. E dizem que ela era a melhor amiga da Lupita, antes desse “imbróglio”! Pode isso? 
A Lupita ainda disse na Polícia que poderia devolver os R$ 240,000 se fosse obrigada a isso. Isso é que é gostar de um sujeito. E o esperto "matador", que pensou ter enganado a Maria Nilza, ficou amigo do Edson e ainda ganhou os R$760,00 pelo engodo e da morte tentada, pois não matou ninguém. 
 Por incrível que pareça, esse falso crime foi apurado em Inquérito na Delegacia de Pindobaçu, onde o Delegado falou que o "caso" virou um "causo". Ele ouviu o Carlos Roberto que disse que aceitou o dinheiro pois estava sem trabalho, desempregado. Mas que não matara ninguém. E não matou mesmo. Foi tudo encenação. Foi liberado inicialmente, porém depois o Delegado decretou a prisão do Carlos Roberto por extorsão, só que ele fugiu da Cidade.  
 E a Maria Nilza, que denunciou o matador, queria apenas reaver os R$ 1000,00 que havia pago para ele 
cometer o crime contra a Lupita. Contudo, a bem da verdade, este fato não está previsto no Código Penal e o Delegado da época, Dr. Marcondes Lima, riu da situação. Disse que o fato virou motivo de gozações na região.  
 Um grupo de "músicos" da cidade fez até uma Música, como título de "Lupita Catchup".... E esse fato inusitado foi parar nas emissoras de TV e de jornais, inclusive de fora do Brasil. Inclusive no jornal "The Guardian", em Londres. 
 Procurado na cidade para dar explicações a uma reportagem da TV, o "matador" não foi encontrado. O pai dele deu entrevistas e disse que tinha vergonha dele, pois era um bandido, e sabia que o mesmo tinha ido morar em São Paulo. Em 2013 foi preso de novo, em Salvador, mas acho que por pouco tempo. E não posso dizer se foi por esse crime de extorsão. Hoje em dia os presos são soltos rapidamente, principalmente quando já passou do prazo do flagrante. Muitos são soltos nas tais Audiências de Custódia.  
A Lupita” catchup” deu entrevistas para a TV e ainda tirou um sarro na Maria Nilza. E disse que ela era fraca, velha, e que não era mulher para o Edson, e que esse gostava mesmo era dela, Lupita. Já o Edson não quis gravar entrevistas para a TV, pois, como pivô de um crime que não aconteceu, ele se sentia meio culpado pelas fotos que havia feito, e era cúmplice dessa farsa. Além do que, traiu a Lupita, e foi corneado pelo "matador”. 
 No final das contas, a Maria Nilza, que perdeu R$1.000,00 e o namorado Edson, ainda ficou sendo motivo de chacota da concorrente Lupita. E não quis mais conversa  
com ninguém, nem com seu antigo amante Edson. Ela agora queria apenas receber os R$ 1000,00 de volta. O que não aconteceu até agora, pelo que fiquei sabendo. 
 Assim, esse triângulo amoroso que, na verdade, tinha 4 pessoas acabou virando um “quadrângulo” amoroso. E virou piada na cidade. E todos agora conhecem a história da Lupita Catchup e de um crime encomendado que não aconteceu. Os moradores da cidade, ao serem perguntados sobre esses fatos aqui narrados, dizem: "Ah é aquele "causo" da Lupita Catchup”? 
 O Inquérito não teve segmento como um crime de tentativa ou de morte. Pois isto não aconteceu.  O Delegado não vai poder punir ninguém, por esses fatos. Mesmo assim indiciou a Maria Nilza como mandante do crime de morte, que não aconteceu. Ficou só na vontade dela. Em que artigo do Código Penal o Delegado se baseou? Afinal de contas ela contratou alguém para cometer um crime, mas este não aconteceu e ela foi lesada pelo criminoso contratado... 
Já o "matador" Carlos Roberto não está sendo procurador por este fato, pois o seu crime simulado não deixou nem marcas. Ou melhor, teve as fotos com a Lupita suja de catchup, mas isso não é crime.  Ele ficou indiciado apenas por extorsão. E a Lupita por coparticipação nesta trama. Afinal de contas, depois de tomar um banho, o catchup desapareceu. Assim como a faca, que era a arma de um crime não cometido. Hoje em dia, se falam do assunto, a Lupita catchup ri dessa história e da concorrente Maria Nilza. O que ficou mesmo foi este causo para ser contado, e a certeza de que nem mais se pode confiar, hoje em dia, 
nem nos matadores de aluguel. E um bom roteirista pode fazer aqui o enredo de um filme   ou de um “Caso Especial” para TV, por exemplo. 
 Já a cidade baiana de Pindobaçu, que muitos não sabiam nem onde se situava, agora seu nome saiu até nos jornais da Inglaterra. E sabemos que, quando se trata de triângulos amorosos, é preciso ter cuidado, pois estes podem ter quatro participantes, como o contado aqui, contrariando até mesmo a Matemática... 
  -Ou é a Trigonometria?  
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Reedição: 12/01/2020
Original de A.L.Gomes
Este conto foi publicado no meu Livro "Crônicas da Vida Real",publicado em 2019 pela Amazon.com

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