quinta-feira, 23 de abril de 2020

"FRANGOTÃO", "PÉ NA MEIA" e "RITA PAVONE"

Quando eu era bem pequeno, ou miúdo, como dizem os portugueses, eu morava numa cidade do Estado da Bahia chamada Vitória da Conquista. Eu deveria ter entre 7 para 08 anos de idade,na época.E quando eu não estava no horário da escola,eu ia na loja onde trabalhavam meu pai e dois irmãos,que eram uns dez anos mais velhos do que eu.(A Nita e o Jorge). Meu pai era sócio desse meu tío, que se chamava Cicero, numa loja chamada "A Lusitânia" e eu ficava por ali para fazer "os mandados" deles e, às vezes, ficava só "coçando o saco" mesmo. 
Porém,meu pai pôs eu e o Zé Luiz, meu outro irmão ,para vender umas mercadorias pelas ruas (miudezas como cremes para cabelos, pasta de dente,pequenos espelhos e pentes). Ele não gostava de ver a gente à toa. Fora esse tempo e a hora da escola,eu estava lá, na Loja sempre mexendo nas coisas, arrumando outras, vendo as pessoas. E até brincando na rua algumas vezes. Afinal de contas eu era um menino.
Nesse tempo fiquei conhecendo algumas figuras interessantes,como o meu outro Tio Moisés,(Irmão de minha mãe) que vivia sozinho.E conheci também um senhor chamado Zuza,um bigodudo gordo que era muito amigo de meu pai. Conversava mais do que o "Homem da Cobra"(Sempre tem um desses nas ruas).
Mas, outras pessoas circundavam por ali,como o Alfredo "calça frouxa"; o Luiz "Foto Cruz"; o Jorge Herculano,meu primo,que era filho de meu outro Tio José(outro irmão de minha mãe). Na loja tinha ainda a Zelita,que depois veio a ser mulher de meu tio Cícero e  a "Ninha" que era irmã dela. Esse povo todo,mais as pessoas que entravam para comprar na loja eram os personagens que eu observava por ali. 
Sempre fui um observador nato.
E ficava também sentado em uns caixotes de madeira que vinham com as mercadorias novas para a loja e que ficavam no lado de fora. E ali,sentado,observava também os que passavam em frente da loja,sem entrar,sem comprar,mas que ficavam por ali . Sempre as mesmas pessoas,todos os dias. Uns eram amigos de meu irmão Jorge,outros iam "sapear" como se diz. Iam fazer "jogo do bicho",fofocar,falar de politica, de futebol e até de mulher. Mas eu era apenas um menino e não participava dessas conversas. Mas fixava bem a cara de cada um deles,enquanto conversavam... 
E tinha uns caras esquisitos, doidões mesmo,que passavam lá,davam uns gritos,chamavam meu irmão pelo nome ou apelidos. E ele respondia lá de dentro da loja. O "Frangotão" era desses. Ele era um cara com problemas de oligofrenia(provavelmente) que ia muito lá. Jorge,o meu irmão dizia sempre para ele: 
-" E aí Frangotão,vai comprar a loja toda hoje? ". 
Era gozação mesmo,pois o Jorge sabia que ele não tinha um centavo sequer. Ia era pedir alguma coisa mesmo. Mas o Jorge ainda dizia para ele,quando ele adentrava a Loja: 
-" Olha cara,hoje só estamos aceitando aqui os seres humanos ". 
Era pura brincadeira. E todos riam. O Frangotão não se importava.
E entre estes que circundavam a loja tinha um sujeito estranho,que ia com um carrinho de ferro,com rodas,para pegar as caixas e papelões,dos que o Jorge jogava na calçada. Era um sujeito bem  estranho,gago e engraçado e que tinha o apelido de "Pé na Meia". 
E tinha sentido esse apelido dele,pois ele andava com umas botinas velhas,mas só um dos pés tinha meia. Ele nunca usava meia nos dois pés. Perguntado o porque disso, ele dizia:
-É porque eu sempre peço coisas para as pessoas. Se verem que eu tenho duas meias, vão dizer que não estou precisando de nada. E além disso já me acostumei, se eu andar com as duas meias,fico travado, manco...entende ?" 
Essa era a "teoria " dele. E também ele só tinha uma roupa. Nunca trocava.Acho que só lavava as suas roupas nos finais de semana. O cheiro(?) forte era demais.A gente achava tudo estranho,mas não humilhava ele não. Ao contrário, ajudava. Inclusive com dinheiro,comida  e até roupas,que ele nunca usava para ir lá na loja. Estava sempre com a mesma roupa. 
Depois,passados uns anos,já morando em Goiás, exatamente na cidade de Goiãnia,GO, conheci mais uma figura estranha. Agora estávamos trabalhando no mesmo local,eu e o Jorge. Uma hora era na feira, outras na Loja ,dependendo do dia da semana.
Um que sempre aparecia lá na loja ou na feira era o "Rita Pavone". Ele era negro e deveria ter uns trinta anos de idade ,mas vestia-se como um menino,com suspensórios e calça curta e tinha problemas mentais também. Nem sei porque deram esse apelido para ele. Mas acho que foi um vendedor de retalhos da feira ,amigo nosso, e que ficava na porta da loja, que sempre o chamava assim. 
A Rita Pavone verdadeira era branca,baixinha e era uma cantora italiana de sucesso no Brasil na época. Nada ele tinha que se parecesse com ela. Mas, ele era "amigão" do Jorge(meu irmão) e dos demais feirantes e das pessoas da loja. Era risão(ria muito) e nem se importava com as brincadeiras. Nós sempre dávamos algo para ele. Durante uns cinco anos eu  o vi  na rua,na feira e na loja... 
Depois me mudei, saí da loja e não mais trabalhei na feira.E nem sei que fim levou o "Rita Pavone".
Desde criança eu observo estas pessoas assim,diferentes,estranhas, as quais chamo de "Vítimas da Sociedade". Gente da rua, sem família,sem lenço e sem documento, E tem muita gente assim.Hoje é pior,pois muitos usam drogas.
 E sempre me questiono:
-Por quê tem de ser assim? 
-Por quê existem pessoas tão diferentes,tão doentes,problemáticas  e sofredoras?
-E por quê me chamam tanto a atenção ?
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 Texto Original de : A.L.G 
 Reedição : 23 de abril de 2020.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo interessante texto. Histórias de nossa meninice, nos mantém crianças, trazendo à tona por instantes, o melhor de nossas vidas e que certamente nos revigora como se fosse um tônico vital.

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